sexta-feira, 6 de maio de 2011

Rio Zona Norte na rue du Temple

Nelson e Ivelise na rue du Temple, tomando um chopinho, porque ninguém é de ferro... Nelson é o grande homenageado do 13o Festival du Cinéma Brésilien de Paris

Paris, 6 maio 2011. Andei ocupadíssimo nos últimos dias. Muitas coisas, muita gente chegando, compromissos acadêmicos e coisa e tal. Estou escrevendo uma apresentação que farei semana que vem na Universidade de Nanterre, Paris X, sobre mídia. Uma trabalheira, sobretudo porque não tem a ver com o objeto de minha pesquisa na França. Quanto à pesquisa, estou organizando os dados recolhidos nesses meses de trabalho. Além de fotografias, estou filmando o quartier d’Aligre com ajuda de Ruben. No sábado e no domingo faremos novas imagens. Também pretendo levar algumas pessoas para um parcours commenté pelo mercado, o que é sempre um bom exercício para ir pensando o campo de pesquisa.

Café de l'Industrie à tarde...

Ao mesmo tempo, estou decidindo se volto mesmo no fim de maio ou se estico mais um pouco minha estadia por aqui. O problema, como sempre, é grana. E ter uns dias livres no Rio me permitiria não só me aclimatar, como ter tempo livre para escrever, antes de voltar à rotina pesada dos horários da redação.

Enquanto isso, não pára de chegar gente do Brasil. Esta semana chegaram Flavio Rodrigues e André Arruda, fotógrafos amigos, com trabalhei no Jornal do Brasil e no Globo. Também começou o 13º Festival du Cinéma Brésilien de Paris, com homenagem a Nelson Pereira dos Santos, a quem pude abraçar na abertura do evento, na última quarta-feira, e apresentar a ele Marta, Ruben e Idriss Diabaté, Combinamos um jantar para um bate-papo mais descontraído. Assistimos ao Rio Zona Norte, filme de Nelson de 1957, com Grande Otelo e Jece Valadão, que foi restaurado e está estalando de novo, com um som maravilhoso. Grande filme.

Ruben e eu, no Le Penty, aproveitando o sol ontem. Foto de Marta Nascimento

Fiquei feliz em ver Nelson sendo homenageado como o grande diretor que ele é. Mas o mais legal do festival foi ter permitido que minha querida Bia Caiado pudesse vir a Paris. Nos encontramos na abertura e hoje temos uma festa. Também encontrei André Miranda, que está cobrindo o evento para o Segundo Caderno. Ontem, ainda encontrei Nelson e, sua mulher, Ivelise, tomando um chope em plena rue du Temple. Paris é uma cidade provinciana... (vejam as fotos).

Também boto mais algumas fotos do Café de l'Industrie e do Penty...

Marta no Penty, aproveitando o sol para termo-regular o espírito

Bem, espero ter tempo para escrever com mais calma (estou correndo para a biblioteca da École). A bientôt.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Na reta final

Vários tipos de ostras são vendidas na parte coberta do mercado d'Aligre, mas as pessoas vão mesmo porque gostam de papear

Paris, 27 abril 2011. Estive fora de combate os últimos dias, derrubado por algo que jantei provavelmente numa brasserie suspeita, em frente à Gare du Nord. Também... corri risco ao pedir um confit de canard e um Côte du Rhone num lugar como esse. Vivi minha própria revolução interna, com o fígado querendo tomar o poder e mudar o regime. Ainda não estou cem por cento, evitando os temperos fortes de que gosto tanto. Marta acha que pode ter sido o almoço, num indiano não menos suspeito, à rue de Lappe, na Bastille. Ou foi simplesmente o corpo começando a cobrar tantos excessos gastronômicos.

Mesmo combalido, mantive o ritmo duro de trabalho na pesquisa. Fui à Maison des Ensembles em busca de imagens antigas do 12ème; fiz um primeiro contato com o Foyer de imigrantes do quartier d’Aligre e sua associação, a Aftam Paris; e comecei a organizar minhas anotações e dados, que são muitos. Uma pena que a Capes rejeitou meu pedido para prorrogar o período de bolsa por mais um mês, pois esses 30 dias a mais seriam o tempo exato para fechar a pesquisa de forma redonda e completa.

Uma espécie de armazém de coisas interessantes, inclusive muitas variedades de cervejas

E, ontem, soube que Idriss foi agredido ao filmar uma passeata em defesa de Gbagbo (o pessoal da Costa do Marfim pronuncia Babô). Sucede que o sobrenome de Idriss indica sua etnia e sua origem geográfica, que é a mesma de Alassane Quattara. Quando a turba encolerizada descobriu que ele se chamava Diabaté, os mais afoitos, uns seis ou sete, reagiram imediatamente e o atacaram, destruindo a câmera de sua produtora. Não fosse a intervenção da polícia, ele teria sido linchado em plena Paris. E se isso tivesse ocorrido na Costa do Marfim, ele seria mais um número nos milhares de mortos neste conflito, que começou político e acirrou o ódio étnico.

Hoje, depois do trabalho de campo, fui ao impressionante Musée du Quai Branly para ver uma enorme exposição etnológica sobre os Dogon, ou melhor sobre suas peças, estatuetas, máscaras, instrumentos etc. A visita faz parte de uma pauta que preparo para o Prosa & Verso, em que vou discutir a questão da chamada “arte primitiva”, relacionando essa exposição (e outras) com a do vudu, que está sendo apresentada no Instituto Cartier. Depois, não satisfeito, ainda assisti três documentários etnográficos na não menos impressionante Cité Nationale de l’Histoire de l’Imigration: um palácio todo esculpido com motivos de imigração e populações de todo o mundo.

O jardim comunitário do bairro, o Aligresse, administrado pelo pessoal da Commune Libre d'Aligre

Os três documentários foram reunidos por Brice Ahounou, que me foi apresentado por Idriss na visita ao bairro do Goutte-d’Or, na semana passada, e Brice me convidou por email. O primeiro filme, chamado Les rites d’eau, de Helène Migerel, antropóloga e psicanalista, foi o que gostei menos como documentário, embora a discussão que ela abordou — o uso dos ritos para suprimir uma noção explícita de culpa — seja bastante rica. O documentário foi feito em Guadalupe, em 2002. O segundo, mais intenso, se chama Voir l’Invisible, une initiation au Bwete Misoko. Foi feito no Gabão, em 2003, por Julien Bonhomme. Mas o meu preferido foi o terceiro e mais longo: Le souffle de la forêt, de Jean-Claude Cheyssial, também feito no Gabão, mas em 1998. Nos três é perceptível a influência de Jean Rouch. Após a apresentação rolou um debate com os três diretores mediado por Brice, mas não pude ficar.

Idriss (de chapeu) e Brice, na semana passada no Institut des Cultures d'Islam, no bairro do Goutte-d'Or

É isso. E assim, minha jornada neste mundo racionalista, berço de émile Durkheim e Marcel Mauss, vai chegando ao fim. Vejamos o que me reservam esses últimos dias. Como hoje saí sem câmera, coloco outras fotos que andei fazendo do Marché d'Aligre por esses dias. À bientôt!

domingo, 24 de abril de 2011

Jantar e jardim comunitários

O realejo ainda encanta as pessoas, sobretudo as crianças. Aliás, a Place d'Aligre é um lugar cheio de música, do sanfoneiro cigano à banda de sopros que tanto me lembram do grupo da Joana em Botafogo...

Paris, 24 abril 2011. Vamos por parte. É tanta coisa acontecendo que perco um pouco o fio da meada. Em ordem cronológica, na quinta-feira passada, portanto um dia antes da visita ao bairro de Goutte-d’or com Idriss Diabaté, estive com Thiago Thiago de Mello, meu primo e mano véio, que aproveitou um seminário em Salamanca para dar uma escapulida a Paris. Apresentei-o ao meu campo de pesquisa e tomamos todas em dois ou três bistrots da região, pois ninguém é de ferro e a saudade, imensa. Estava sem câmera, mas ele fez os registros e estou aguardando o envio para postar aqui.

Conversamos sobre meu campo e sua pesquisa, sobre a música popular brasileira, a partir de um viés bastante singular, que foge dos cânones tropicalistas e da linhagem capitaneada por Caetano Veloso, o que permite um olhar para alguns artistas que estão realmente fazendo uma nova MPB e que não são muito conhecidos. Conversamos sobre Manduka, evidentemente e, mais especificamente, sobre sua passagem por Paris, lamentando não conhecer alguns dos percursos que ele fez naqueles anos 70, quando gravou com Naná Vasconcelos seu disco parisiense.

Eu e Thiaguinho no Penty, encontro histórico no meu terreno de pesquisa. Um chope Leffe merecido cercado de boa energia

Na sexta-feira, ficamos de nos ver, pois queria apresentá-lo ao Idriss, mas as coisas tomaram rumo próprio e o encontro ficou marcado para o Rio. Encontros internacionais são assim mesmo: têm um ritmo todo próprio. Além disso, ele me pegou num momento de alta intensidade na pesquisa, com uma série de eventos e compromissos relacionados à etnografia e a meus affairs acadêmicos aqui. Sei que parece que a vida é moleza e que estudar um bairro a partir de seu mercado, feira, cafés e associações parece uma desculpa para enfiar o pé na jaca, mas o fato é que estou exausto.

Os voluntários preparam a sobremesa do jantar comunitário. Cada um se inscreve para fazer algo, do chef aos ajudantes de cozinha e a turma que ajuda a servir. Entrei nesta última categoria...

Ontem, sábado 23 de abril, dia de São Jorge e aniversário de Marta, por exemplo, fui almoçar com Pedro García Sanchez, professor e maître de conférences do Departamento de Sociologia da Universidade de Nanterre, sendo um dos responsáveis pelos cursos e pesquisas sobre sociologia e antropologia urbanas. Ele também pertence ao Groupe de Sociologie Politique et Morale (GSPM), laboratório da École com o qual meu convênio foi feito. Pedro é venezuelano, mas vive em Paris há muitos e muitos anos. Conheci sua mulher Hèlene e o pequeno Nathanel, de 9 meses.

Foi bom conversar com o Pedro, que pôde confirmar algumas impressões que tive sobre meus colegas da École, sobretudo com respeito à relação entre Boltanski e Thévenot. Mas isso é outro assunto, que cabe mais na rubrica de fofoca profissional. De qualquer modo, Pedro me convidou para dar uma palestra sobre minha tese, abordando o tema da mídia e da imprensa nos dias atuais. Pensei em convidar a Marta para escrever uma parte do artigo, sobre fotojornalismo na Europa, enquanto abordo o processo de mudança, a partir da redação. Como estou lendo Walter Benjamin, me lembrei da brincadeira que Mila Chaseliov fez para dar título à sua monografia, e já batizei o artigo: Le journalisme à la époque de sa reprodution numérique. A idéia é publicá-lo aqui em Paris.

Os velinhos magrebinos se sentam nos bancos da Place d'Aligre todos os dias para pôr o papo em dia

Pedro me apresentou ainda à Patrícia, uma pesquisadora mexicana da Universidade de Los Angeles, que estuda migração e adaptação de imigrantes nos bairros americanos, através dos usos dos idiomas. Almoçamos num ao lado da casa de Pedro, chamado O’Kay Café, no Quai de Loire, no 19ème. Um deck situado sobre o canal de l’Ourcq. Fazia um calor de verão. A temperatura perto dos 30 graus. Até deu uma chuva de excesso de vapor. Mas apenas um arremedo da tempestade tropical. Algumas gotas e só. Logo estiou.

Saí de lá atrasadíssimo para o trabalho na Commune Libre d’Aligre, onde ajudei a servir o jantar comunitário. Foi uma experiência sensacional, embora bastante cansativo. Ajudei a arrumar as mesas, a servir. Éramos uma equipe de três servindo, e cinco na cozinha preparando o menu, que tinha entrada, prato principal e sobremesa. Esse é o tipo de trabalho que o antropólogo tem que fazer. Na verdade, estava trabalhando em minha pesquisa. Pude observar como o Café Associativo da Commune Libre d’Aligre organiza um jantar comunitário e qual é a filosofia de integração das pessoas do quartier. A coisa começou às 20h e acabou quase meia-noite.

Mais imagem da equipe responsável pela bouffe na Commune Libre d'Aligre

Hoje, domingo, fui ao jardim comunitário Aligresse, onde continuei o papo com as pessoas da associação. O jardim é cuidado por voluntários. As pessoas plantam o que quiserem e mantêm tudo anotado numa espécie de diário, onde colocam reclamações, avisos, dicas e até mesmo desenhos de crianças. Há croquis do jardim e caricaturas dos participantes. Há muitas frutas e legumes plantados e, agora que a primavera chegou para valer, é realmente muito bonito.

Bem, é isso por enquanto. À bientôt!

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Paris black e islâmica

Os fiéis fazendo a oração de sexta-feira, em frente à Mesquita Al Fateh: tapetes cobrem as ruas da região de Barbès e o pessoal tira os sapatos e se ajoelha para orar

Paris, 22 abril 2011. Meu amigo Idriss Diabaté me levou hoje para um parcours commenté pela Paris black, como o pessoal daqui se refere ao bairro Goutte-d'or, localizado em torno das estações de metrô de Barbès e Chateau Rouge, próximo à Montmartre. Por sincronicidade, hoje fez um sol daqueles e a temperatura oscilou acima dos 25 graus. Me lembrei do camelódromo atrás da Central do Brasil, antes do incêndio, só que a presença africana e muçulmana é quase total. Rodamos pelas ruas do bairro, tomamos café num boteco de esquina, de onde observamos o movimento. Idriss estava retribuindo o passeio que fiz com ele no Rio de Janeiro, no ano passado, quando participou do festival de cinema negro, promovido por Zózimo Bubul.

No pequeno bar, enquanto falávamos sobre cinema, antropologia e jornalismo, um sujeito (acho que estava meio bêbado), começou a fazer um discurso sobre os colonizadores que pilharam a África e que, agora, querem se mostrar amigos dos negros. Era obviamente dirigido a mim e ao Idriss, mas continuamos nossa conversa à la egyptienne. Num jantar, outro dia, Idriss contou que, ao ligar para uma irmã para ter notícias, após a confusão toda em Costa do Marfim, ouviu a pessoa que passava o telefone identificá-lo como Idriss, le blanc. Apesar de ser preto retinto, o fato de morar na França e ter hábitos europeus, levou a seus parentes mais próximos a identificá-lo como branco.

Idriss (de chapeu) e Brice, que é do Benin, mas vive há muitos anos na região de Barbès, e foi assistente de Jean Rouch

Depois, retomamos nossa caminhada e acabamos almoçando em um pequeno restaurante senegalês, o Le Nioumre, situado em frente à Mesquita Al Fateh. Foi emocionante. Ao entrar um sujeito tocava a kora, uma linda harpa africana de poderosa sonoridade e 27 cordas (Idriss me disse que há uma lenda que determina que não se pode tocar a vigésima sétima corda, do contrário a pessoa morre). O músico também inventava a letra saudando as pessoas que entravam no restaurante e, ao ser informado que eu era brasileiro, fez toda uma prosa me dando as boas-vindas.

Em seguida, saudou Idriss, por seu sobrenome, Diabaté, que especifica uma linhagem de porta-vozes do povo griot. Aprendi ainda que Keita foi o rei e fundador da etnia, que está presente em Senegal, Mali, Costa do Marfim, Guiné, entre outros países. E, como sua função é narrar histórias, muitos griots são músicos, escritores, cineastas e tal. Idriss pediu um Yassa (frango com arroz branco num molho amarronzado, bastante picante). Eu fui de Maffé (peixe com umas sementes no lugar do arroz, e um molho picante de fazer baiano suar). Bebi uma espécie de suco de gengibre, igualmente picante, e litros e litros de água. Mas a comida é simplesmente maravilhosa e suculenta, além de generosamente servida.

Detalhe dos sapatos e tênis largados à beira da calçada, enquanto o pessoal se prepara para orar

Saímos do bar com a barriga cheia e bem na hora que começavam as orações da sexta-feira, em frente à mesquita. Os fiéis levam tapetes para a rua, que é fechada ao tráfego de carros e bicicletas, e fazem suas orações ao ritmo de um mantra cantado dentro da mesquita lotada e transmitido por alto-falantes ao lado de fora. Fiz algumas fotos, e um sujeito reclamou, afirmando que não era permitido fotografar, mas haviam dois sujeitos filmando, num esquema profissional. De modo que ignorei o sujeito e fiz mais algumas fotos, incentivado ainda pelo Idriss.

Depois fomos encontrar um antropólogo, amigo de Idriss, que trabalha com cinema etnográfico, tendo sido um dos principais assistentes de Jean Rouch. Trata-se de Brice Ahounou, um sujeito bem simpático e morador do bairro. Fizemos com ele um novo parcours commenté. Ele nos levou numa loja de alta costura, que pertence ao movimento SAPE (sigla de societé des ambienceurs et des personnes elegantes), iniciado no antigo Zaire e que é se espalhou pela África. Os membros dessa sociedade são uma espécie de dandys e têm que se vestir muito bem, com roupas dos grandes costureiros, e dançar e cantar em festas e boates. O Papa Wemba é um sapeur.

Uma das instalações do Institu des Cultures d'Islam

Fomos ainda a um centro cultural chamado Institut des Cultures d’Islam, onde vimos uma exposição de um fotógrafo britânico, que fez várias imagens da mesquita que acabáramos de ver. Havia ainda umas instalações e outras obras dentro do título geral Tous Islamaniaques!, um trocadilho para lá de espirituoso. E foi isso. A bientôt!

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Flanando com Benjamin

Escada rolante à saída do metrô: uma raridade em Paris...

Paris, 20 abril 2011. Hoje está fazendo uns 30 graus e o céu é insuportavelmente azul. Se houvesse um pouco mais de umidade, eu poderia fechar os olhos e pensar que estava em algum canto tropical, na periferia do Ocidente, como diria Geraldinho Carneiro. Mas Paris é uma cidade seca, não tão seca como Brasília na estiagem, mas o suficiente para esquentar com qualquer raio de sol que se insinue entre os blocos haussmanniens. Pela primeira vez desde que cheguei aqui, saí só de camiseta, sem qualquer casaco ou pullover. Não tem jeito, o calor empresta uma leveza à vida.

Por determinação de Giovanna Deltry, que é minha orientadora pelo lado da literatura, comprei um livro do Walter Benjamin, que traz seus escritos sobre Paris e sua produção reflexiva e literária nos últimos anos de sua vida, antes do suicídio. Uma edição de bolso (uns 8 euros) da Folio Essais, chamada Écrits français, onde se encontram os consagrados ensaios: L’oeuvre de art à la époque de sa reprodution mecanisée (de 1936) e Paris, capitale du XIXème siècle (1939), em que ele dialoga com os interiores de Louis-Philippe, as ruas de Baudelaire, e as barricadas de Haussmann.

O bairro do 10ème, que está sendo revitalizado e recebe uma onda de bobôs, ainda guarda seu charme popular

Não há nada melhor do que andar por Paris em boa companhia e Benjamin se mostrou um bom companheiro de promenade. Caminho, ando e paro em alguns banquinhos, aproveitando o sol para termo-regular minha temperatura corporal e sentir o cheiro da primavera parisiense, em que todas as flores, árvores, bichos estão em plena explosão de vida. E, amanhã, Thiaguinho chega da Espanha para tomarmos uma cerveja de boa pressão em algum bistrot interessante. Quem sabe não descolamos os endereços de Manduka em Paris. Gostaria muito de ver o que ele viu quando viveu aqui nos anos 70.

Ontem, dei entrada na papelada da carte de séjour junto à École, que vai cuidar do processo junto à Prefecture de Police, que é quem concede os vistos. Quando ficar pronto o visto de pesquisador-convidado, já estarei provavelmente de volta ao Rio. Também conversei com o Mello, meu orientador, e ele concordou que é uma boa idéia estender por mais um mês minha estadia aqui. Pois, se de um lado, a burocracia se arrasta lentamente, como sempre, a pesquisa vai muito bem, obrigado. Este sábado, vou inaugurar meu trabalho com o pessoal da Commune Libre d’Aligre, ajudando a servir no jantar comunitário.

Os imensos outdoors nas estações de metrô de Paris

Sei que muita gente pensa que é uma moleza fazer uma pesquisa antropológica sobre um bairro parisiense para comparar com outro carioca. Ir ao café da esquina para observar as relações sociais entre os vizinhos, clientes, visitantes, comerciantes e tal. Mas, quando se está trabalhando de verdade, não se para de fazer anotações, mapas, traduções culturais e, no fim, é extremamente cansativo passar quatro, cinco horas num mesmo lugar para tentar perceber as nuances do cotidiano.

E, depois, mergulhar em leituras pesadas. É sociologia urbana na veia. É preciso fazer discussões de conceitos, e explicar suas opções teóricas e metodológicas. Sobretudo porque venho de uma linhagem que não é a mais convencional nas universidades brasileiras e francesas. E creio mesmo que, nesses tempos pós-modernos e globalizados, é preciso rever certos paradigmas que ficaram engessados no tempo e não dão mais conta de explicar satisfatoriamente certos fenômenos sociais.

Outra cena rara: um prédio com a fachada renovada. De qualquer modo, a idéia de pôr espelhos atenuou a mudança, pois reflete a vizinhança

Então, sentar-se sob o sol, num banquinho de praça, no bairro que é alvo de minha pesquisa, é duplamente lazer e trabalho. Por outro lado, sinto que vou sofrer ao voltar à rotina da redação, que tem seu tempo próprio e seus ritmos de intensidade e frouxidão. Já esqueci completamente o que é um pescoção, um plantão de fim de semana, o texto automatizado, mais noticioso e menos reflexivo. Mas, ao mesmo tempo, às vezes sinto falta dos parâmetros mentais que essa rotina me dá.

Bem, é isso. Coloco umas fotos que fiz das minhas perambulações pela cidade, já que o assunto é flanar por Paris. A bientôt!

domingo, 17 de abril de 2011

Comptoir Générale

O bar lounge do Comptoir Générale, sofas, poltronas e cadeiras num ambiente com decoração meio africana

Paris, 17 abril 2011. É impressionante como os franceses têm na alma uma vocação republicana. Em cada centro de bairro há organizações, associações, ONGs e sede de partidos políticos ou outros pontos de encontro, onde tramam manifestações, reivindicações, encontros de integração e coisa e tal. É mais impressionante ainda a participação de jovens e, mesmo, de um tipo de jovem, que se veste meio alternativamente, cabelos rastafári, com dreadlocks, piercings, tatuagens, defensores de uma vida alternativa em relação à globalização, ao consumo compulsivo, por uma alimentação mais saudável etc.

Detalhe da decoração kitsch e que dá um clima de brechó

Ou seja, me lembra um pouco os movimentos estudantis dos anos 60 e 70, quando se juntava à agenda de transformação política revolucionária, pleitos como amor livre, ecologia e coisa e tal. Talvez seja mesmo uma continuação, em que essas questões existenciais, antes relegadas a segundo plano em nome da revolução socialista, ganham um papel protagonista. E as lutas são focadas em questões locais e localizadas, em vez de grandes transformações globais.

Marta e Ruben me apresentaram ontem a um lugar muito interessante, no 10ème quartier, Trata-se do Comptoir Générale, uma espécie de centro cultural, sala de reuniões e exposições, com bar lounge. É um lugar caindo aos pedaços, mas com muito charme e com produtos de origem natural. Ontem, por exemplo, estava rolando uma reunião do Partido Verde, ou coisa que o valha. Havia ainda uma exposição sobre bruxaria e, no salão do bar, que parecia um brechó, várias poltronas, cadeiras velhas sobre um chão de ladrilhos desgastados, onde as pessoas se instalavam confortavelmente com seus drinques e petiscos.

No mesmo lugar, mas em outra sala, uma exposição sobre bruxaria

Antes, havia passado em outro quartier, que passa por uma revitalização acelerada, com renovação de prédios e gentrification. Era um lugar meio barra pesada, com tráfico de drogas e uma certa marginalidade para os padrões parisienses. Hoje, está mais bobotizado, com pessoas andando de bicicleta e participando de eventos comunitários. Ontem, por exemplo, foi uma série de shows com bandas locais (muitos rastas), enquanto na pracinha (Saint-Marthe) havia troca de CDs e comida caseira.

Retrato deste pesquisador entre os nativos feito por Marta. No fundo, mais da exposição sobre bruxaria

Acho que, para o parisiense, é uma forma de pertencer ao bairro, à cidade, enfim, mas, ao mesmo tempo, de se posicionar globalmente contra a globalização. Há uma energia interessante nessa integração, como seria de se esperar. As pessoas flertam, se conhecem, namoram, fazem soirées, jantares, bares. A boemia se mescla a um tipo especial e original de mobilização. Enquanto isso, os partidos tradicionais, como o PS, continuam panfletando nas bocas das estações de metrô e fazendo manifestações com o caixão do FMI.

O bairro do 10ème num sábado de sol: as pessoas se sentam à beira do canal Saint-Mathe, et voilà!

Bem, para encerrar, hoje, domingão de sol, o mercado d’Aligre bombou. Tomei meu café da manhã no Penty, depois de ter feito novas fotografias do mercado. Essa semana vou pretendo dividir meu tempo de pesquisa com o Le Penty e a Commune Libre d’Aligre. Vamos ver. À bientôt!

sábado, 16 de abril de 2011

La Commune Libre d'Aligre

O jardim comunitário d'Aligre: de uma área abandonada, um parquinho entre os prédios do 12ème

Paris, 16 abril 2011. E a fase dois da pesquisa começa. Após um período de observação direta, chegou a hora de ensaiar uma observação participante. No próximo sábado vou trabalhar ajudando a servir o jantar comunitário da Commune Libre d’Aligre, uma das organizações representativas do bairro, que tem uma linhagem anarquista, à qual me integrei, pagando uma anuidade de 5 euros. Eles têm uma série de atividades, como palestras do pessoal do ATTAC (aquele grupo que luta para taxas as operações financeiras dos bancos e reverter esse imposto em bem-estar social), jantares comunitários, cinema com debate, ateliês de costura e gastronômicos (ou outros cursos que alguém invente).

Eles são bastante atuantes no bairro. Por exemplo, transformaram uma rua abandonada num parquinho com jardim comunitário. Qualquer pessoa do grupo pode plantar suas hortaliças no jardim e todos são responsáveis por sua manutenção. Mas as sementes e material têm que ser bio, isto é, com certificado de origem e coisa e tal. É o tipo de atividade e organização que gostaria de ver em Botafogo. Também têm um café da associação, onde se pode ir o dia inteiro e jogar conversa fora.

Jojo, o patron do Le Penty, e Berengere, sua filha, clima de botequim

Ontem, para variar, fui ao Penty, onde fiz uma foto do patron, Jojo (pronuncia-se Juju), e sua filha. Com uma presença diária no bar, não tem como não se integrar. Um dos habitués veio me mostrar cédulas de dinheiro marroquino. O sujeito está um pouco lelé-da-cuca, para usar uma expressão da minha avó, mas é muito simpático. As cédulas reproduziam mesquitas e tinham aqueles arabescos interessantes, mas, sinceramente, não entendi muito por que o sujeito veio me mostrar aquelas notas amassadas.

Após um dia bastante produtivo, fui a um jantar na casa de Nathalie e Christian com Ruben e Marta. Lá, encontramos um casal de portugueses, Eduardo e Helena, amigos da galera, e Idriss Diabaté, o cineasta da Costa do Marfim que conheci no Rio, no ano passado, durante o festival de cinema negro. Ele foi com a mulher. Idriss é uma figura e muito simpático e além de cineasta, dá aula na universidade. Ele acaba de voltar da Abdjam, onde fez relatos impressionantes da violência política, com a queda de Laurent Gbagbo, preso no último dia 11.

A coisa anda bem feia por aqueles lados. Ele disse que ficou impressionado como as pessoas passam por cima dos cadáveres nas áreas de maior conflito sem se incomodar. Só se preocupam quando a violência atinge suas famílias, linhagens ou etnias. A morte em massa dos outros não despertam muita reação. Idriss vem do Norte da Costa do Marfim, e a linhagem Diabaté é conhecida como de contadores de histórias (há muitos escritores, músicos e, no caso de Idriss, cineastas).

Idriss e eu, no jantar na casa de Nathalie e Christian: boa conversa, excesso de vinho

De qualquer modo, o jantar foi, mais uma vez, uma orgia gastronômica e um excesso de vinhos. Toda vez que vou à casa de Nathalie e Christian exagero no vinho. No fim, é ruim, pois já não dá nem mesmo para degustar as sutilizes dos sabores e perfumes, é mais uma coisa de beber compulsivamente, em torno de uma boa conversa.

Bem, agora me preparo para ir ao mercado. À bientôt!