
Paris, 2 junho 2011. Tenho passado os últimos dias num apartamento, cuja varanda dá para o canal de l’Ourc, no 19ème. Trata-se da casa do sociólogo Pedro García Sanchez e sua mulher, Hèlene, que viajaram e deixaram o apê comigo. Desse modo, dou uma folga para Ruben, Marta & Lorenzo (que teve provas essa semana) e também aproveito o silêncio e a solidão para avançar nas leituras, escrituras e organização dos dados de minha pesquisa. Tarefa hercúlea e cansativa, que exige muita concentração. Ontem, praticamente não pus os pés na rua, apesar do céu insuportavelmente azul e a temperatura agradável. Mas aproveitei para organizar a estrutura da monografia e já comecei a escrever a introdução, que é mais chatinha porque vou discutir uma série de conceitos e explicar minhas opções teóricas e metodológicas.
Hoje, em compensação, aproveitei o calor de 26 graus e caminhei daqui à casa de Marta e, depois, até o Marché d’Aligre, onde, quase desidratado, tomei uma cerveja no Penty. Não sei medir a distância, mas foi quase uma hora de caminhada, do 19ème ao 12ème, começando pela avenida Jean Jaurès e seguindo pelos bulevares de la Villette, de Belleville, de Ménilmontant, contornando o cemitério Père Lachaise, pegando a avenida Philippe Auguste até a Nation e o bulevard Diderot até a casa de Marta. Esse percurso me permitiu sentir com calma a mudança de atmosfera dos arrondissements parisienses.

São justamente os bairros dos arrondissements do Norte e Nordeste da cidade que estão passando por um processo mais agudo de aburguesamento. Mas, sobretudo em Belleville, percebe-se uma dinâmica de mistura muito interessante, com várias etnias e classes sociais convivendo no mesmo espaço, o que é bastante saudável para o bairro. Ouve-se não apenas muitos idiomas distintos, mas sotaques também. Jovens turcos com gumex nos cabelos, à la juventude transviada; velhos muçulmanos magrebinos; chineses da nova e da velha diásporas; judeus ortodoxos; e os bobôs, cuja presença já começa a gerar mudanças nos bairros. Há muitos imóveis sendo reformados e novos tipos de lojas estão abrindo as portas nessas áreas, antes dominadas pelo comércio tradicional, do açougue kosher à lanchonete de kebab.
Nesses próximos dias vou apressar a pesquisa (de campo e na biblioteca), ajudar Marta num projeto de documentário interessantíssimo (detalhes no próximo post), visitar toda uma lista de pessoas e tomar um chope duas amigas que estão de passagem por Paris. Também quero ir ao maior número possível de exposições que conseguir. Prefiro ir a esses salões aqui em vez de ir ao cinema ou à boate, coisa que posso fazer no Brasil. As exposições aqui têm sido de altíssimo nível e, infelizmente, no Rio são poucos os lugares e poucas as exposições interessantes.

Outro dia, por exemplo, vi a exposição America, sobre Richard Prince, pintor e fotógrafo, na Biblioteca Mitterrand, um passeio pelo universo rebelde americano dos anos 50 para cá, passando pelos beats, o jornalismo gonzo, e a transa pornográfica dos romances pulp: motocicletas com louras peladas e seus namorados Hell’s Angels. Deu pra sentir? Na exposição estão, entre outros, Andy Warhol (como sempre), Velvet Underground, Hunter Thompson, todos os escritores beats, Bob Dylan e Jim Morrison. Muitas fotos de Woodstock e Hell’s Angels. Uma das coisas que mais me encantou foi uma carta amorosa de Jimi Hendrix para o pai, numa caligrafia que lembra seus solos de guitarra: redonda e bem desenhada.
Tenho a impressão, mas posso está falando besteira, que a turma beat bebeu na fonte dos escritores surrealistas franceses dos anos 20 e na geração posterior. Pelo menos na postura meio iconoclasta e rebelde. Penso em Leiris, Artaud, Bataille e Vian. Quer dizer, a coisa anarquista, surrealista, a psicanálise, a antropologia social e tal. Certamente, os litros e litros de bourbon, cigarro, drogas e a coisa junk pesada marcam uma postura (anti)social que se desdobra nas contestações que se seguem, do movimento hippie ao punk. Mas a parada americana é mais industrial.

Isso me lembra um pouco o que me parece ser uma estratégia dos tropicalistas, que bebem na fonte de tudo o que é significativo e interessante, mesmo que esse tudo não siga na mesma direção. Às vezes, me parece que forçam uma certa barra nessas vinculações. Pelas entrevistas e depoimentos, vê-se, por exemplo, o movimento dos baianos abraçando a antropofagia de Oswald, a poesia concreta, a Bossa Nova, o Cinema Novo, o Teatro Oficina, a arquitetura de Niemeyer, o que tem lógica como influência. Mas não pára aí. O abraço tropicalista engloba ainda a poesia de João Cabral, o cinema marginal (que se opunha visceralmente ao cinema de Glauber e Nelson Pereira) e... tudo o que soma em termos de prestígio cultural. Fico na dúvida se, nessa geléia geral, estamos falando de influência ou de malandragem populista.
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ResponderExcluirAquelas meninas estão com as tetas meio combalidas, mas a inocência da primeira é nada perto da @dinnosara
ResponderExcluirConvido para que veja e comente o meu Armelau no http://jefhcardoso.blogspot.com/
“Que a escrita me sirva como arma contra o silêncio em vida, pois terei a morte inteira para silenciar um dia” (Jefhcardoso)