quinta-feira, 28 de abril de 2011

Na reta final

Vários tipos de ostras são vendidas na parte coberta do mercado d'Aligre, mas as pessoas vão mesmo porque gostam de papear

Paris, 27 abril 2011. Estive fora de combate os últimos dias, derrubado por algo que jantei provavelmente numa brasserie suspeita, em frente à Gare du Nord. Também... corri risco ao pedir um confit de canard e um Côte du Rhone num lugar como esse. Vivi minha própria revolução interna, com o fígado querendo tomar o poder e mudar o regime. Ainda não estou cem por cento, evitando os temperos fortes de que gosto tanto. Marta acha que pode ter sido o almoço, num indiano não menos suspeito, à rue de Lappe, na Bastille. Ou foi simplesmente o corpo começando a cobrar tantos excessos gastronômicos.

Mesmo combalido, mantive o ritmo duro de trabalho na pesquisa. Fui à Maison des Ensembles em busca de imagens antigas do 12ème; fiz um primeiro contato com o Foyer de imigrantes do quartier d’Aligre e sua associação, a Aftam Paris; e comecei a organizar minhas anotações e dados, que são muitos. Uma pena que a Capes rejeitou meu pedido para prorrogar o período de bolsa por mais um mês, pois esses 30 dias a mais seriam o tempo exato para fechar a pesquisa de forma redonda e completa.

Uma espécie de armazém de coisas interessantes, inclusive muitas variedades de cervejas

E, ontem, soube que Idriss foi agredido ao filmar uma passeata em defesa de Gbagbo (o pessoal da Costa do Marfim pronuncia Babô). Sucede que o sobrenome de Idriss indica sua etnia e sua origem geográfica, que é a mesma de Alassane Quattara. Quando a turba encolerizada descobriu que ele se chamava Diabaté, os mais afoitos, uns seis ou sete, reagiram imediatamente e o atacaram, destruindo a câmera de sua produtora. Não fosse a intervenção da polícia, ele teria sido linchado em plena Paris. E se isso tivesse ocorrido na Costa do Marfim, ele seria mais um número nos milhares de mortos neste conflito, que começou político e acirrou o ódio étnico.

Hoje, depois do trabalho de campo, fui ao impressionante Musée du Quai Branly para ver uma enorme exposição etnológica sobre os Dogon, ou melhor sobre suas peças, estatuetas, máscaras, instrumentos etc. A visita faz parte de uma pauta que preparo para o Prosa & Verso, em que vou discutir a questão da chamada “arte primitiva”, relacionando essa exposição (e outras) com a do vudu, que está sendo apresentada no Instituto Cartier. Depois, não satisfeito, ainda assisti três documentários etnográficos na não menos impressionante Cité Nationale de l’Histoire de l’Imigration: um palácio todo esculpido com motivos de imigração e populações de todo o mundo.

O jardim comunitário do bairro, o Aligresse, administrado pelo pessoal da Commune Libre d'Aligre

Os três documentários foram reunidos por Brice Ahounou, que me foi apresentado por Idriss na visita ao bairro do Goutte-d’Or, na semana passada, e Brice me convidou por email. O primeiro filme, chamado Les rites d’eau, de Helène Migerel, antropóloga e psicanalista, foi o que gostei menos como documentário, embora a discussão que ela abordou — o uso dos ritos para suprimir uma noção explícita de culpa — seja bastante rica. O documentário foi feito em Guadalupe, em 2002. O segundo, mais intenso, se chama Voir l’Invisible, une initiation au Bwete Misoko. Foi feito no Gabão, em 2003, por Julien Bonhomme. Mas o meu preferido foi o terceiro e mais longo: Le souffle de la forêt, de Jean-Claude Cheyssial, também feito no Gabão, mas em 1998. Nos três é perceptível a influência de Jean Rouch. Após a apresentação rolou um debate com os três diretores mediado por Brice, mas não pude ficar.

Idriss (de chapeu) e Brice, na semana passada no Institut des Cultures d'Islam, no bairro do Goutte-d'Or

É isso. E assim, minha jornada neste mundo racionalista, berço de émile Durkheim e Marcel Mauss, vai chegando ao fim. Vejamos o que me reservam esses últimos dias. Como hoje saí sem câmera, coloco outras fotos que andei fazendo do Marché d'Aligre por esses dias. À bientôt!

domingo, 24 de abril de 2011

Jantar e jardim comunitários

O realejo ainda encanta as pessoas, sobretudo as crianças. Aliás, a Place d'Aligre é um lugar cheio de música, do sanfoneiro cigano à banda de sopros que tanto me lembram do grupo da Joana em Botafogo...

Paris, 24 abril 2011. Vamos por parte. É tanta coisa acontecendo que perco um pouco o fio da meada. Em ordem cronológica, na quinta-feira passada, portanto um dia antes da visita ao bairro de Goutte-d’or com Idriss Diabaté, estive com Thiago Thiago de Mello, meu primo e mano véio, que aproveitou um seminário em Salamanca para dar uma escapulida a Paris. Apresentei-o ao meu campo de pesquisa e tomamos todas em dois ou três bistrots da região, pois ninguém é de ferro e a saudade, imensa. Estava sem câmera, mas ele fez os registros e estou aguardando o envio para postar aqui.

Conversamos sobre meu campo e sua pesquisa, sobre a música popular brasileira, a partir de um viés bastante singular, que foge dos cânones tropicalistas e da linhagem capitaneada por Caetano Veloso, o que permite um olhar para alguns artistas que estão realmente fazendo uma nova MPB e que não são muito conhecidos. Conversamos sobre Manduka, evidentemente e, mais especificamente, sobre sua passagem por Paris, lamentando não conhecer alguns dos percursos que ele fez naqueles anos 70, quando gravou com Naná Vasconcelos seu disco parisiense.

Eu e Thiaguinho no Penty, encontro histórico no meu terreno de pesquisa. Um chope Leffe merecido cercado de boa energia

Na sexta-feira, ficamos de nos ver, pois queria apresentá-lo ao Idriss, mas as coisas tomaram rumo próprio e o encontro ficou marcado para o Rio. Encontros internacionais são assim mesmo: têm um ritmo todo próprio. Além disso, ele me pegou num momento de alta intensidade na pesquisa, com uma série de eventos e compromissos relacionados à etnografia e a meus affairs acadêmicos aqui. Sei que parece que a vida é moleza e que estudar um bairro a partir de seu mercado, feira, cafés e associações parece uma desculpa para enfiar o pé na jaca, mas o fato é que estou exausto.

Os voluntários preparam a sobremesa do jantar comunitário. Cada um se inscreve para fazer algo, do chef aos ajudantes de cozinha e a turma que ajuda a servir. Entrei nesta última categoria...

Ontem, sábado 23 de abril, dia de São Jorge e aniversário de Marta, por exemplo, fui almoçar com Pedro García Sanchez, professor e maître de conférences do Departamento de Sociologia da Universidade de Nanterre, sendo um dos responsáveis pelos cursos e pesquisas sobre sociologia e antropologia urbanas. Ele também pertence ao Groupe de Sociologie Politique et Morale (GSPM), laboratório da École com o qual meu convênio foi feito. Pedro é venezuelano, mas vive em Paris há muitos e muitos anos. Conheci sua mulher Hèlene e o pequeno Nathanel, de 9 meses.

Foi bom conversar com o Pedro, que pôde confirmar algumas impressões que tive sobre meus colegas da École, sobretudo com respeito à relação entre Boltanski e Thévenot. Mas isso é outro assunto, que cabe mais na rubrica de fofoca profissional. De qualquer modo, Pedro me convidou para dar uma palestra sobre minha tese, abordando o tema da mídia e da imprensa nos dias atuais. Pensei em convidar a Marta para escrever uma parte do artigo, sobre fotojornalismo na Europa, enquanto abordo o processo de mudança, a partir da redação. Como estou lendo Walter Benjamin, me lembrei da brincadeira que Mila Chaseliov fez para dar título à sua monografia, e já batizei o artigo: Le journalisme à la époque de sa reprodution numérique. A idéia é publicá-lo aqui em Paris.

Os velinhos magrebinos se sentam nos bancos da Place d'Aligre todos os dias para pôr o papo em dia

Pedro me apresentou ainda à Patrícia, uma pesquisadora mexicana da Universidade de Los Angeles, que estuda migração e adaptação de imigrantes nos bairros americanos, através dos usos dos idiomas. Almoçamos num ao lado da casa de Pedro, chamado O’Kay Café, no Quai de Loire, no 19ème. Um deck situado sobre o canal de l’Ourcq. Fazia um calor de verão. A temperatura perto dos 30 graus. Até deu uma chuva de excesso de vapor. Mas apenas um arremedo da tempestade tropical. Algumas gotas e só. Logo estiou.

Saí de lá atrasadíssimo para o trabalho na Commune Libre d’Aligre, onde ajudei a servir o jantar comunitário. Foi uma experiência sensacional, embora bastante cansativo. Ajudei a arrumar as mesas, a servir. Éramos uma equipe de três servindo, e cinco na cozinha preparando o menu, que tinha entrada, prato principal e sobremesa. Esse é o tipo de trabalho que o antropólogo tem que fazer. Na verdade, estava trabalhando em minha pesquisa. Pude observar como o Café Associativo da Commune Libre d’Aligre organiza um jantar comunitário e qual é a filosofia de integração das pessoas do quartier. A coisa começou às 20h e acabou quase meia-noite.

Mais imagem da equipe responsável pela bouffe na Commune Libre d'Aligre

Hoje, domingo, fui ao jardim comunitário Aligresse, onde continuei o papo com as pessoas da associação. O jardim é cuidado por voluntários. As pessoas plantam o que quiserem e mantêm tudo anotado numa espécie de diário, onde colocam reclamações, avisos, dicas e até mesmo desenhos de crianças. Há croquis do jardim e caricaturas dos participantes. Há muitas frutas e legumes plantados e, agora que a primavera chegou para valer, é realmente muito bonito.

Bem, é isso por enquanto. À bientôt!

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Paris black e islâmica

Os fiéis fazendo a oração de sexta-feira, em frente à Mesquita Al Fateh: tapetes cobrem as ruas da região de Barbès e o pessoal tira os sapatos e se ajoelha para orar

Paris, 22 abril 2011. Meu amigo Idriss Diabaté me levou hoje para um parcours commenté pela Paris black, como o pessoal daqui se refere ao bairro Goutte-d'or, localizado em torno das estações de metrô de Barbès e Chateau Rouge, próximo à Montmartre. Por sincronicidade, hoje fez um sol daqueles e a temperatura oscilou acima dos 25 graus. Me lembrei do camelódromo atrás da Central do Brasil, antes do incêndio, só que a presença africana e muçulmana é quase total. Rodamos pelas ruas do bairro, tomamos café num boteco de esquina, de onde observamos o movimento. Idriss estava retribuindo o passeio que fiz com ele no Rio de Janeiro, no ano passado, quando participou do festival de cinema negro, promovido por Zózimo Bubul.

No pequeno bar, enquanto falávamos sobre cinema, antropologia e jornalismo, um sujeito (acho que estava meio bêbado), começou a fazer um discurso sobre os colonizadores que pilharam a África e que, agora, querem se mostrar amigos dos negros. Era obviamente dirigido a mim e ao Idriss, mas continuamos nossa conversa à la egyptienne. Num jantar, outro dia, Idriss contou que, ao ligar para uma irmã para ter notícias, após a confusão toda em Costa do Marfim, ouviu a pessoa que passava o telefone identificá-lo como Idriss, le blanc. Apesar de ser preto retinto, o fato de morar na França e ter hábitos europeus, levou a seus parentes mais próximos a identificá-lo como branco.

Idriss (de chapeu) e Brice, que é do Benin, mas vive há muitos anos na região de Barbès, e foi assistente de Jean Rouch

Depois, retomamos nossa caminhada e acabamos almoçando em um pequeno restaurante senegalês, o Le Nioumre, situado em frente à Mesquita Al Fateh. Foi emocionante. Ao entrar um sujeito tocava a kora, uma linda harpa africana de poderosa sonoridade e 27 cordas (Idriss me disse que há uma lenda que determina que não se pode tocar a vigésima sétima corda, do contrário a pessoa morre). O músico também inventava a letra saudando as pessoas que entravam no restaurante e, ao ser informado que eu era brasileiro, fez toda uma prosa me dando as boas-vindas.

Em seguida, saudou Idriss, por seu sobrenome, Diabaté, que especifica uma linhagem de porta-vozes do povo griot. Aprendi ainda que Keita foi o rei e fundador da etnia, que está presente em Senegal, Mali, Costa do Marfim, Guiné, entre outros países. E, como sua função é narrar histórias, muitos griots são músicos, escritores, cineastas e tal. Idriss pediu um Yassa (frango com arroz branco num molho amarronzado, bastante picante). Eu fui de Maffé (peixe com umas sementes no lugar do arroz, e um molho picante de fazer baiano suar). Bebi uma espécie de suco de gengibre, igualmente picante, e litros e litros de água. Mas a comida é simplesmente maravilhosa e suculenta, além de generosamente servida.

Detalhe dos sapatos e tênis largados à beira da calçada, enquanto o pessoal se prepara para orar

Saímos do bar com a barriga cheia e bem na hora que começavam as orações da sexta-feira, em frente à mesquita. Os fiéis levam tapetes para a rua, que é fechada ao tráfego de carros e bicicletas, e fazem suas orações ao ritmo de um mantra cantado dentro da mesquita lotada e transmitido por alto-falantes ao lado de fora. Fiz algumas fotos, e um sujeito reclamou, afirmando que não era permitido fotografar, mas haviam dois sujeitos filmando, num esquema profissional. De modo que ignorei o sujeito e fiz mais algumas fotos, incentivado ainda pelo Idriss.

Depois fomos encontrar um antropólogo, amigo de Idriss, que trabalha com cinema etnográfico, tendo sido um dos principais assistentes de Jean Rouch. Trata-se de Brice Ahounou, um sujeito bem simpático e morador do bairro. Fizemos com ele um novo parcours commenté. Ele nos levou numa loja de alta costura, que pertence ao movimento SAPE (sigla de societé des ambienceurs et des personnes elegantes), iniciado no antigo Zaire e que é se espalhou pela África. Os membros dessa sociedade são uma espécie de dandys e têm que se vestir muito bem, com roupas dos grandes costureiros, e dançar e cantar em festas e boates. O Papa Wemba é um sapeur.

Uma das instalações do Institu des Cultures d'Islam

Fomos ainda a um centro cultural chamado Institut des Cultures d’Islam, onde vimos uma exposição de um fotógrafo britânico, que fez várias imagens da mesquita que acabáramos de ver. Havia ainda umas instalações e outras obras dentro do título geral Tous Islamaniaques!, um trocadilho para lá de espirituoso. E foi isso. A bientôt!

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Flanando com Benjamin

Escada rolante à saída do metrô: uma raridade em Paris...

Paris, 20 abril 2011. Hoje está fazendo uns 30 graus e o céu é insuportavelmente azul. Se houvesse um pouco mais de umidade, eu poderia fechar os olhos e pensar que estava em algum canto tropical, na periferia do Ocidente, como diria Geraldinho Carneiro. Mas Paris é uma cidade seca, não tão seca como Brasília na estiagem, mas o suficiente para esquentar com qualquer raio de sol que se insinue entre os blocos haussmanniens. Pela primeira vez desde que cheguei aqui, saí só de camiseta, sem qualquer casaco ou pullover. Não tem jeito, o calor empresta uma leveza à vida.

Por determinação de Giovanna Deltry, que é minha orientadora pelo lado da literatura, comprei um livro do Walter Benjamin, que traz seus escritos sobre Paris e sua produção reflexiva e literária nos últimos anos de sua vida, antes do suicídio. Uma edição de bolso (uns 8 euros) da Folio Essais, chamada Écrits français, onde se encontram os consagrados ensaios: L’oeuvre de art à la époque de sa reprodution mecanisée (de 1936) e Paris, capitale du XIXème siècle (1939), em que ele dialoga com os interiores de Louis-Philippe, as ruas de Baudelaire, e as barricadas de Haussmann.

O bairro do 10ème, que está sendo revitalizado e recebe uma onda de bobôs, ainda guarda seu charme popular

Não há nada melhor do que andar por Paris em boa companhia e Benjamin se mostrou um bom companheiro de promenade. Caminho, ando e paro em alguns banquinhos, aproveitando o sol para termo-regular minha temperatura corporal e sentir o cheiro da primavera parisiense, em que todas as flores, árvores, bichos estão em plena explosão de vida. E, amanhã, Thiaguinho chega da Espanha para tomarmos uma cerveja de boa pressão em algum bistrot interessante. Quem sabe não descolamos os endereços de Manduka em Paris. Gostaria muito de ver o que ele viu quando viveu aqui nos anos 70.

Ontem, dei entrada na papelada da carte de séjour junto à École, que vai cuidar do processo junto à Prefecture de Police, que é quem concede os vistos. Quando ficar pronto o visto de pesquisador-convidado, já estarei provavelmente de volta ao Rio. Também conversei com o Mello, meu orientador, e ele concordou que é uma boa idéia estender por mais um mês minha estadia aqui. Pois, se de um lado, a burocracia se arrasta lentamente, como sempre, a pesquisa vai muito bem, obrigado. Este sábado, vou inaugurar meu trabalho com o pessoal da Commune Libre d’Aligre, ajudando a servir no jantar comunitário.

Os imensos outdoors nas estações de metrô de Paris

Sei que muita gente pensa que é uma moleza fazer uma pesquisa antropológica sobre um bairro parisiense para comparar com outro carioca. Ir ao café da esquina para observar as relações sociais entre os vizinhos, clientes, visitantes, comerciantes e tal. Mas, quando se está trabalhando de verdade, não se para de fazer anotações, mapas, traduções culturais e, no fim, é extremamente cansativo passar quatro, cinco horas num mesmo lugar para tentar perceber as nuances do cotidiano.

E, depois, mergulhar em leituras pesadas. É sociologia urbana na veia. É preciso fazer discussões de conceitos, e explicar suas opções teóricas e metodológicas. Sobretudo porque venho de uma linhagem que não é a mais convencional nas universidades brasileiras e francesas. E creio mesmo que, nesses tempos pós-modernos e globalizados, é preciso rever certos paradigmas que ficaram engessados no tempo e não dão mais conta de explicar satisfatoriamente certos fenômenos sociais.

Outra cena rara: um prédio com a fachada renovada. De qualquer modo, a idéia de pôr espelhos atenuou a mudança, pois reflete a vizinhança

Então, sentar-se sob o sol, num banquinho de praça, no bairro que é alvo de minha pesquisa, é duplamente lazer e trabalho. Por outro lado, sinto que vou sofrer ao voltar à rotina da redação, que tem seu tempo próprio e seus ritmos de intensidade e frouxidão. Já esqueci completamente o que é um pescoção, um plantão de fim de semana, o texto automatizado, mais noticioso e menos reflexivo. Mas, ao mesmo tempo, às vezes sinto falta dos parâmetros mentais que essa rotina me dá.

Bem, é isso. Coloco umas fotos que fiz das minhas perambulações pela cidade, já que o assunto é flanar por Paris. A bientôt!

domingo, 17 de abril de 2011

Comptoir Générale

O bar lounge do Comptoir Générale, sofas, poltronas e cadeiras num ambiente com decoração meio africana

Paris, 17 abril 2011. É impressionante como os franceses têm na alma uma vocação republicana. Em cada centro de bairro há organizações, associações, ONGs e sede de partidos políticos ou outros pontos de encontro, onde tramam manifestações, reivindicações, encontros de integração e coisa e tal. É mais impressionante ainda a participação de jovens e, mesmo, de um tipo de jovem, que se veste meio alternativamente, cabelos rastafári, com dreadlocks, piercings, tatuagens, defensores de uma vida alternativa em relação à globalização, ao consumo compulsivo, por uma alimentação mais saudável etc.

Detalhe da decoração kitsch e que dá um clima de brechó

Ou seja, me lembra um pouco os movimentos estudantis dos anos 60 e 70, quando se juntava à agenda de transformação política revolucionária, pleitos como amor livre, ecologia e coisa e tal. Talvez seja mesmo uma continuação, em que essas questões existenciais, antes relegadas a segundo plano em nome da revolução socialista, ganham um papel protagonista. E as lutas são focadas em questões locais e localizadas, em vez de grandes transformações globais.

Marta e Ruben me apresentaram ontem a um lugar muito interessante, no 10ème quartier, Trata-se do Comptoir Générale, uma espécie de centro cultural, sala de reuniões e exposições, com bar lounge. É um lugar caindo aos pedaços, mas com muito charme e com produtos de origem natural. Ontem, por exemplo, estava rolando uma reunião do Partido Verde, ou coisa que o valha. Havia ainda uma exposição sobre bruxaria e, no salão do bar, que parecia um brechó, várias poltronas, cadeiras velhas sobre um chão de ladrilhos desgastados, onde as pessoas se instalavam confortavelmente com seus drinques e petiscos.

No mesmo lugar, mas em outra sala, uma exposição sobre bruxaria

Antes, havia passado em outro quartier, que passa por uma revitalização acelerada, com renovação de prédios e gentrification. Era um lugar meio barra pesada, com tráfico de drogas e uma certa marginalidade para os padrões parisienses. Hoje, está mais bobotizado, com pessoas andando de bicicleta e participando de eventos comunitários. Ontem, por exemplo, foi uma série de shows com bandas locais (muitos rastas), enquanto na pracinha (Saint-Marthe) havia troca de CDs e comida caseira.

Retrato deste pesquisador entre os nativos feito por Marta. No fundo, mais da exposição sobre bruxaria

Acho que, para o parisiense, é uma forma de pertencer ao bairro, à cidade, enfim, mas, ao mesmo tempo, de se posicionar globalmente contra a globalização. Há uma energia interessante nessa integração, como seria de se esperar. As pessoas flertam, se conhecem, namoram, fazem soirées, jantares, bares. A boemia se mescla a um tipo especial e original de mobilização. Enquanto isso, os partidos tradicionais, como o PS, continuam panfletando nas bocas das estações de metrô e fazendo manifestações com o caixão do FMI.

O bairro do 10ème num sábado de sol: as pessoas se sentam à beira do canal Saint-Mathe, et voilà!

Bem, para encerrar, hoje, domingão de sol, o mercado d’Aligre bombou. Tomei meu café da manhã no Penty, depois de ter feito novas fotografias do mercado. Essa semana vou pretendo dividir meu tempo de pesquisa com o Le Penty e a Commune Libre d’Aligre. Vamos ver. À bientôt!

sábado, 16 de abril de 2011

La Commune Libre d'Aligre

O jardim comunitário d'Aligre: de uma área abandonada, um parquinho entre os prédios do 12ème

Paris, 16 abril 2011. E a fase dois da pesquisa começa. Após um período de observação direta, chegou a hora de ensaiar uma observação participante. No próximo sábado vou trabalhar ajudando a servir o jantar comunitário da Commune Libre d’Aligre, uma das organizações representativas do bairro, que tem uma linhagem anarquista, à qual me integrei, pagando uma anuidade de 5 euros. Eles têm uma série de atividades, como palestras do pessoal do ATTAC (aquele grupo que luta para taxas as operações financeiras dos bancos e reverter esse imposto em bem-estar social), jantares comunitários, cinema com debate, ateliês de costura e gastronômicos (ou outros cursos que alguém invente).

Eles são bastante atuantes no bairro. Por exemplo, transformaram uma rua abandonada num parquinho com jardim comunitário. Qualquer pessoa do grupo pode plantar suas hortaliças no jardim e todos são responsáveis por sua manutenção. Mas as sementes e material têm que ser bio, isto é, com certificado de origem e coisa e tal. É o tipo de atividade e organização que gostaria de ver em Botafogo. Também têm um café da associação, onde se pode ir o dia inteiro e jogar conversa fora.

Jojo, o patron do Le Penty, e Berengere, sua filha, clima de botequim

Ontem, para variar, fui ao Penty, onde fiz uma foto do patron, Jojo (pronuncia-se Juju), e sua filha. Com uma presença diária no bar, não tem como não se integrar. Um dos habitués veio me mostrar cédulas de dinheiro marroquino. O sujeito está um pouco lelé-da-cuca, para usar uma expressão da minha avó, mas é muito simpático. As cédulas reproduziam mesquitas e tinham aqueles arabescos interessantes, mas, sinceramente, não entendi muito por que o sujeito veio me mostrar aquelas notas amassadas.

Após um dia bastante produtivo, fui a um jantar na casa de Nathalie e Christian com Ruben e Marta. Lá, encontramos um casal de portugueses, Eduardo e Helena, amigos da galera, e Idriss Diabaté, o cineasta da Costa do Marfim que conheci no Rio, no ano passado, durante o festival de cinema negro. Ele foi com a mulher. Idriss é uma figura e muito simpático e além de cineasta, dá aula na universidade. Ele acaba de voltar da Abdjam, onde fez relatos impressionantes da violência política, com a queda de Laurent Gbagbo, preso no último dia 11.

A coisa anda bem feia por aqueles lados. Ele disse que ficou impressionado como as pessoas passam por cima dos cadáveres nas áreas de maior conflito sem se incomodar. Só se preocupam quando a violência atinge suas famílias, linhagens ou etnias. A morte em massa dos outros não despertam muita reação. Idriss vem do Norte da Costa do Marfim, e a linhagem Diabaté é conhecida como de contadores de histórias (há muitos escritores, músicos e, no caso de Idriss, cineastas).

Idriss e eu, no jantar na casa de Nathalie e Christian: boa conversa, excesso de vinho

De qualquer modo, o jantar foi, mais uma vez, uma orgia gastronômica e um excesso de vinhos. Toda vez que vou à casa de Nathalie e Christian exagero no vinho. No fim, é ruim, pois já não dá nem mesmo para degustar as sutilizes dos sabores e perfumes, é mais uma coisa de beber compulsivamente, em torno de uma boa conversa.

Bem, agora me preparo para ir ao mercado. À bientôt!

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Revolução e boemia em Paris

A turma de alunos da Alliance em Paris: só maluco, tocando sua banda imaginária, a começar pela professora no centro

Paris, 15 abril 2011. Nos últimos dias, a temperatura deu uma caída, oscilando entre 4 e 14 graus. Voltei aos casacões, depois de uma semana inteira só com pullover. Essa época é de muita oscilação, já haviam me prevenido. É sempre importante consultar o tempo antes de sair de casa e decidir que tipo de roupa vestir. Sobretudo no meu caso que saio de casa às 8 e pouco da manhã e só retorno depois das 22h. Nesse período, o tempo pode variar mais de dez graus nessa época de primavera, em que a temperatura permanece indecisa entre o inverno e o verão. Pelo menos não tem chovido. O sol brilha todos os dias (e às vezes engana: saímos de casa pensando que está calor e... necas).

Ontem foi minha última aula na Alliance. Gostei muito da turma, especialmente de Carmen, uma espanhola espoleta, que está fazendo uma pós-graduação aqui em Direito; Tereza, uma jovem tcheca, que faz doutorado em Geografia Humana e é meio punk no vestir e no comportamento. Tem ainda Kazerina, uma freira polonesa; Erin e Caroline, duas americanas; Akira, um japonês que parece um monge, com uma barba longa como daqueles personagens de filme de kung fu; Emily, australiana. Entre outros. Mas a pessoa realmente sensacional é Arnaude, a professora, que é uma figura singular, inteligente e excelente profissional. Além de tudo, ela freqüenta o Marché d’Aligre, onde já nos encontramos uma vez.

A região do Butte-aux-Cailles, reduto boêmio perto da Place d'Italie

Quanto à pesquisa, deixo o corpo e a mente correrem com a maré. Agora que o efeito do déplacement perde sua força à medida que vou pertencendo cada vez mais ao lugar, é hora de aprofundar os contatos. Trocar um pouco a observação pela conversação. Lá no Penty, já me tornei um habitué, a ponto de Jojo (pronuncia-se Juju), o patron, me tratar com jocosidade e uma simpatia mais íntima. Aliás, com exceção do Café de L’Industrie, que tem um clima mais rotativo, como o Capela, por exemplo, os demais bistrots que ando freqüentando por aqui têm sua turma de regulars, que vão todos os dias. É impressionante, como batem ponto nos bares, nem que seja para um café rápido antes de ir para casa. Assim, quando começamos a ir com freqüência a um café de proximidade, logo nos tornamos conhecidos dos donos e dos demais habitués.

Tenho ido com relativa freqüência, antes de voltar para casa, ao La Folie em Tête para um chope, antes de me enfurnar na minha chambre na Place d’Italie. Assim, vejo o movimento em torno da região do Butte-aux-Cailles, onde perambula uma boemia classe média parisiense; dou umas flertadas para aquecer o coração e jogo conversa fora para praticar o francês, dar tratos à bola dos dados etnográficos que vou recolhendo no campo.

Jovens na Pont des Arts, onde os apaixonados colocam cadeados no alambrado para proteger suas relações amorosas: racionalidade francesa no século XXI?

A passagem do Orlando me deu o que pensar. Ele, que vive em Londres há muitos anos, me falou sobre o ataque dos governos da União Européia ao Estado de bem estar social para conter os déficits fiscais dos governos, especialmente depois das crises que abalaram o euro a partir de Grécia, Irlanda, Portugal e tal. Medidas duras de cortes fiscais atingem em cheio os programas sociais e pioram as condições de vida das pessoas, sobretudo no que se refere ao emprego e à moradia.

A Europa inteira está mergulhada numa crise que vai bem além dos fundamentos econômicos. É o epicentro do impasse mais recente do atual estágio do capitalismo globalizado. Um estágio em que os bancos e as empresas vão muito bem, obrigado, com lucros crescentes e ganhos financeiros difíceis de lastrear par rapport à realidade; já as pessoas vão de mal a pior, com salários achatados, desemprego, falta de moradia etc e tal. O processo de gentrification que estou estudando, no Rio e em Paris, é um fenômeno que se insere neste contexto maior. E acho que a melhor forma de pensar criticamente esse fenômeno é examinando não apenas os grandes planos macroeconômicos, mas a vida das pessoas no seu cotidiano e proximidade.

Meio borrado, mas vá lá: outa imagem do La Folie, onde parei para um chope antes de me recolher: saudade de uma boemia que n'existe plus

Entender a cidade a partir de uma noção de ecologia urbana, em que as transformações do tecido social, as mudanças da morfologia dos bairros, a substituição de populações, as bobotizações, gentrifications, aburguesamentos, ou, ao contrário, favelizações, guethorizações e formações squatts, invasões e ocupações por sem-teto são parte de um processo interligado. Entender o micro e o macro a partir das situações é o caminho para reformular uma crítica social e apresentar projetos viáveis de melhoria de vida, sem ter que recorrer a velhos paradigmas que se esgotaram na História.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Jantar anarquista

Claudinha e o "camarada" do Les Temps des Cerises

Paris, 14 abril 2011. Vários amigos estão passando por Paris. Anteontem, jantei com Claudinha no Au Temps des Cerises, um restaurante anarquista na região de Butte-aux-Cailles, que tem mesas coletivas, o que acaba facilitando o contato entre as pessoas, e uma tropa de empregados-sócios-cooperativados, ou coisa que o valha, de modo que n’y a pas de patron, como disse um deles, que posou para uma foto com Claudinha ao fim da jornada gastronômica. Ela comeu um pavê de salmão e eu, um entrecôte grillé e matamos uma garrafa de um tinto de Turenne. Claudinha, que não é fácil de agradar, gostou muito. Hoje, ela embarcou para a Turquia.

Ontem, foi a vez de Orlando Hill, amigo do século XII, que vive em Londres, pegar o Eurostar, para passar o dia em Paris. Foi a uma exposição do Pierre Fatumbi Vergé e, depois, nos encontramos no Café de L’Industrie para almoçar: Confit de canard com batatas coradas. Sendo meu amigo brasileiro de origem britânica-cearense, atacamos de cerveja: Leffe. Depois, caminhamos pelo Marché d’Aligre e tomamos um café no Penty. Mostrei a casa de Marta & Ruben e atualizamos a conversa. Agora, é minha vez de retribuir a visita. Quanto a mim, ontem jantei num indiano perto de casa, com especialidades do sul da Índia (comi uns camarões cozidos ao curry com arroz basmati) e ainda tomei uma saideira no La Folie en Tête, de onde acompanhei o burburinho do Butte-aux-Cailles.

A placa à entrada do restaurante já indica que a parada é a cozinha

Fora essas orgias gastronômicas e etílicas, trabalho duro na pesquisa e corro atrás de papeladas burocráticas (ontem traduzi, enfim, minha certidão de nascimento para dar entrada na carte de séjour). Quanto aos estudos, estou mergulhado nas leituras. Já fichei vários textos sobre gentrification, urbanismo e ainda descolei uma dissertação sobre o Marché d’Aligre, feita à moda funcionalista. Muito interessante. E creio que este é o único trabalho de cunho antropológico sobre este quartier parisiense. Estou ansioso para pegar minhas notas sobre Botafogo e começar a escrever uma monografia contrastando os dois bairros. Há muitas coisas similares e completamente díspares entre as duas regiões e os processos de transformação urbana.

Hoje é o meu último dia de aula na Alliance. A partir de agora seguirei por conta própria. Foi um adianto, mas é muito caro (quase 190 euros por cada duas semanas). É o tipo de curso desenhado para quem tem grana e tempo sobrando, o que não é, definitivamente, o meu caso. De qualquer modo, o que já fiz até foi um adianto. Descobri que estou quase no nível B1, que é o início do intermediário, segundo os padrões europeus. Bem, em termos práticos, consigo ler e entender bem, falo ainda timidamente e escrevo com dificuldade (mas com a ajuda do tradutor do Google, me viro muito bem). Até o fim desse séjour, estarei com certeza mais afiado.

O balcão do La Folie en Tête. A foto está um pouco escura, mas há um instrumento de sopro inusitado em cima do balcão, que é uma peça de decoração insólita

Falando em Alliance, estou justamente fazendo este post da cantina da escola, que tem Wi-Fi. Daqui a pouco começa minha aula. A bientôt!

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Judeus e palestinos no marché d'Aligre

Hoje entrou em vigor a lei que proíbe o uso em público de veu, máscara ou qualquer indumentária que esconda o rosto. Uma lei destinada às muçulmanas que usam burka. Hoje protestos na cidade

Paris, 11 abril 2011. Comme d’habitude, trabalhei ontem em minha pesquisa, fazendo observações a partir do Café Le Penty. Mas antes, havia acordado às 5h40 da manhã para chegar ao mercado bem no início, quando a feira externa ainda está sendo montada. Praticamente não havia fregueses, só feirantes e as pessoas que trabalham no mercado. Dei uma circulada, fiz algumas fotos (um casal de feirantes reclamou, dizendo que se quisesse fotografar que pagasse... mandei-os pastar, como não poderia ser de outra forma, mesmo porque não os estava fotografando, mas sim a feira em geral). De qualquer modo, a luz não era boa para fotografar, pois o sol ainda estava baixo e os prédios faziam sombra. Mas foi bom o conflito para acordar.

Em seguida, circulei pela parte coberta do mercado (o Marché Beauvau). Lá, nem todas as lojas estavam abertas. O chão estava molhado da lavagem, e carregadores de mercadorias entravam e saíam com carrinhos de entrega cheios de caixas de madeira, com produtos. Todo mundo concentrado nas suas tarefas. E, por fim, fui tomar um café para esquentar (estava fazendo uns 14 graus, mas depois a temperatura passou dos 23 graus).

Primeiro, como contei no post anterior, fui ao Kofe, um café de esquina como o Le Penty, mas do outro lado. Havia uma mulher lendo o jornal e tomando café, sentada a uma mesinhas da calçada. Dentro, dois magrabinos conversavam, ocupando uma mesa. Pedi um expresso no balcão e me sentei do lado fora para observar o movimento. Logo, ao meu lado, três homens se sentaram para tomar café. Eram trabalhadores do mercado que, segundo Marta, fazem um bico carregando mercadorias para os feirantes e comerciantes, sendo pagos por hora. Eles conversavam em árabe entre eles.

À tarde voltei ao Penty. Fiquei na parte interna, onde havia um palestino fazendo uma reunião com uma mulher importante, mas desconhecida para mim. Ele vinha pedir o apoio dela à sua organização em Jerusalém. Ele falava em inglês, e um outro homem, que ficava o tempo todo com um laptop sobre a mesa, traduzia para a mulher. Depois todos passaram a falar em inglês, sobre a importância de apoiar esse grupo.

A montagem da feira no Marché d'Aligre, domingo bem cendo. Sem os clientes, em vez do pregão, ouvimos conversações em árabe

Mas não consegui saber qualquer detalhe, nem estava muito interessado nisso. Meu interesse era observar a reação do patron do Le Penty, chamado pelos habitués de Joujou (ou coisa que o valha), que é um judeu tunisiano (aproveito para corrigir sua nacionalidade: ele não é egípcio, mas sim tunisiano, aliás como a maioria dos comerciante do Marché d’Aligre). Mas, ele não estava nem aí. Continuou atendendo normalmente e, quando o trio foi embora, fez uma piada sobre gente importante em seu café (os fregueses habitués e as filhas riram da piada). Mas não ouvi direito o que ele disse.

O Joujou é um tipo muito interessante, mas anda esquecendo as coisas. Às vezes é preciso repetir o pedido para lembrá-lo, ainda mais porque em Paris pode-se ficar à mesa por horas sem que ninguém venha falar com você. A essa altura já sou um estranho conhecido. As filhas são muito atenciosas, e o patron é mais de lua, mas quase sempre bem gentil. Bem, é isso. À bientôt!

domingo, 10 de abril de 2011

Le Penty, meu boteco n'Aligre

Grafiti na rue de Butte aux Cailles, zona boêmia próxima à Place d'Italie

Paris, 10 abril 2011. Os últimos dias foram de trabalho duro na pesquisa. Estive pelo menos o tempo de um café todos os dias desta semana no Le Penty ou circulando pelo mercado d’Aligre. Fiz muitas anotações de observação direta, para entrar na fase de entrevistas, que reforçarão a pesquisa bibliográfica. Semana que vem começo a freqüentar também a Commune Libre d’Aligre, que tem eventos sociais e comunitários todos os dias. Enquanto isso, vou me integrando à paisagem e Paris cada vez mais, e a cidade vai deixando de ser “estranha”. Mas, ao mesmo tempo, sem perder o encantamento.

Algumas coisas, no entanto, me incomodam. Como a cidade é bem mais silenciosa que o Rio, o barulho das sirenes de ambulâncias e polícias é insuportável. E aqui eles usam as sirenes como buzina. O tempo todo passa uma ambulância ou uma viatura da polícia, perturbando a paz. Também aqui, como no Rio, há aqueles sujeitos que dão vazão ao excesso de testosterona pelo escapamento aberto das motocicletas; ou aqueles outros que urinam nas calçadas. Outros dois itens na minha lista de coisas que incomodam em Paris é a falta de relógios nas ruas (com exceção de algumas farmácias e no metrô) e a dificuldade de obter guardanapo quando se come nos bares e restaurantes (ando com os bolsos cheios deles).

Bem, mas voltando à vaca fria, na quinta-feira, Claudinha, uma colega de redação do Globo chegou de férias do Rio, a caminho da Turquia. Ela ficará uns dias em Paris antes de seguir para Istambul, e nós nos encontramos para uma cerveja no Café de L’Industrie, depois de meu curso de francês. Botamos o papo em dia e ela me deu boas notícias sobre o estado de saúde de um colega, que passou por uma longa e difícil cirurgia. Sua recuperação foi considerada miraculosa pelos médicos.

A parte externa do mercado d'Aligre, onde ficam os antiguarios. No Centro, a casinha com relógio, que marca o antigo orfanato e o mercado fechado (Beauvau), erguido em 1779

Na sexta-feira, fui ver três exposições com Ruben no museu do Jardin de Tulleries, todas bastante conceituais, mas nada muito interessante. Depois caminhamos pela região do Louvre, vimos algumas lojas bem burguesas e demos uma longa vuelta de perro, antes de nos encontrarmos com Marta para uma cerveja no Penty. Já havia passado boa parte da manhã no bar e voltar à tarde deu um bom contraste. De manhã, as pessoas comiam as opções do menu da casa (croque monsieur, croque madame, com ou sem salada, ou omelete) e, à tarde, tomavam uma cervejinha acompanhando o ritmo da rua. Paris é especialmente linda quando faz sol. Além disso, a temperatura está quente, mas quente como, digamos, Friburgo, uns 23 graus.

À noite, jantei no Le Temps des Cerises (que é do lado de casa, na Place d’Italie) em homenagem à Soraya, que é fã do lugar. De fato muito bom. Um bistrot anarquista, onde funcionava uma cooperativa de trabalhadores (Société Coopérative Ouvrière de Production). Os pratos são fartos e copieuses, um tipo de generosidade meio rara em Paris. A região de Butte-aux-Cailles estava fervilhando de gente. Também, era uma sexta-feira sem chuva e com a temperatura em torno dos 20 e tantos graus. Parecia o Baixo Leblon dos anos 80, com levas de pessoas para cima e para baixo, circulando entre os bistrots. E é uma região bem menos turística do que, por exemplo, a Bastille.

Mais uma foto da parte interna do Le Penty, meu boteco preferido no quartier d'Aligre

Sábado apresentei o mercado à Claudinha. Circulamos na parte fechada (Beauvau) e ela fotografou a stand de frutas e flores, que realmente fazem uma bela paisagem. Depois circulamos pelo lado de fora. Mostrei os cafés e acabamos no Baron Rouge que, milagrosamente, não estava lotado. O Baron é como o Jobi. Mas é um bar à vin, onde se degustam vinhos e beliscam petiscos como vários tipos de presunto, salaminhos e queijos. O pessoal que atende é muito simpático e sugerem harmonizações se o cliente quiser. É um lugar realmente para degustar e não é caro. Cada um de nós tomou duas taças e repartimos uma tábua de queijos e frios e a conta deu menos de 20 euros. À tarde ainda voltei ao Penty para um café e fiz mais anotações.

Hoje, amanheci às 6h30 para ir ao mercado ainda na preparação. Queria ter uma idéia dos ciclos do Marché d’Aligre, como funciona a feira, a parte de antiguidades e roupas e o mercado fechado, assim como os cafés. Vi onde os comerciantes guardam suas caixas e como funciona o sistema de limpeza, após o fim do mercado. Também vi trabalhadores temporários, todos magrebinos, que aproveitam a feira para carregar e descarregar caixas e ganhar uns trocados. Tomei um café às 7h e pouco no Kofe, onde todos falavam árabe e se cumprimentavam ao modo islâmico: salam aleikum! E mais outro expresso no Penty, onde estavam velhos moradores do bairro, todos franceses.

Agora, são quase 1h da tarde. Estou fazendo esse post, vou almoçar alguma coisa e volto para o meu quartier prefere para anotar. A bientôt!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Mudança de marcha

Paris é uma cidade desenhada para se andar a pé ou de bicicleta: o pessoal paga 26 euros por ano por uma vaga nessas máguinas

Paris, 6 abril 2011. O ritmo das coisas aqui entrou numa espécie de “velocidade cruzeiro”, quer dizer, me sinto agora mais inserido no dia-a-dia de Paris, com minhas atividades cotidianas, meus afazeres, deveres e também um lazer já mais integrado ao das pessoas que vivem aqui. Já não sinto, como no início, o forte estranhamento que me fazia escrever neste caderno de campo diariamente e com sofreguidão. Agora, venho aqui numa média de dois em dois dias, com um balanço do que se passou nesse meio tempo, porque, na verdade, o tempo agora tem outra dimensão para mim, escorrendo mais lentamente.

Sacar isso é muito importante, pois não tinha percebido esse fenômeno, assim, dessa maneira vívida e internalizada. Quer dizer, o quanto a relação do tempo tem a ver com nossa inserção na sociedade onde vivemos. O tempo, o espaço, o corpo... o espírito, por que não? Já não me chamam a atenção as cores e os odores, os volumes construídos da cidade, o perfil arquitetônico das ruas, a indumentária dos parisienses nessa transição entre o inverno e a primavera. É como se eu tivesse morado em Paris toda minha vida e tudo me parece normal e “natural”.

Mas isso também abre outro canal de visualização. É como se tivesse trocado a lente teleobjetiva, que me permitia ver detalhes normalmente invisíveis para os habitantes daqui, por uma grande angular, que me obriga a me aproximar e a me inserir nas coisas. E se não há mais os detalhes do estranhamento, o que vejo agora vem impregnado de uma vivência compartilhada e, portanto, com um peso de realidade mais íntima, repartida entre os cidadãos que compartilham o mesmo espaço.

Nas proximidades da Place d'Italie, onde vivo atualmente

Engraçado que em seu livro, Franco La Cecla, que já mencionei aqui (Contre l’Architecture), afirma que hoje em dia o espaço das cidades é tão fragmentado que sua continuidade nos escapa, seu todo nos elude. Além disso, sob o peso da influência da arquitetura modernista de cunho racionalista, as metrópoles se prepararam para a pressa e a rapidez, como valores positivos. Mas a pressa é uma contradição com respeito ao habitar e um de seus efeitos imediatos são o esquecimento e a distração. No mundo marcadamente pós-moderno de hoje, as pessoas andam apressadas e mergulhadas em seus umbigos, mediante gadgets eletrônicos de última geração. Seguem, na pressa ultramoderna, seu cotidiano diluídas em suas identidades.

Quanto a mim, ontem mais cedo resolvi coisas de banco, tomei um café no Le Penty, para marcar presença no Marché d’Aligre, e fui estudar francês. Depois que saí da Alliance, fui à abertura da exposição sobre vudu, na Fundação Cartier. Interessante (voltarei a isso em outro momento). Depois, fui para a região da Place d’Italie, aproveitando o tempo bom e o calor, para tomar uma cerveja no La Folie em Tête, no quartier de Butte-aux-Cailles (me lembra muito o Greenwich Village nova-iorquino da época em que vivi na Big Apple).

Minha intenção era tomar um ou dois copos, observar o movimento do bar, que é bem interessante, e depois, em homenagem à Soraya (, recebi o documento, obrigadíssimo!) ir jantar no bar anarquista Le Temps des Cerises. Foi o que fiz, mas o Cerises estava lotado, de modo que acabei jantando em outro restaurante das imediações: Le Samson. Lá, comi de entrada fois gras com peras, pães e umas folhas de alface. Depois, um boeuf borguignon, que desmanchava no garfo de tão macio, com batatas cozidas e fatias de baguette para passar no molho. Caiu muito bem, especialmente porque a temperatura havia caído um pouco.

As estações de metrô de Paris estão sendo reformadas: vão eliminar o ofício de motorneiro (os trens serão dirigidos por robôs) e nas plataformas estão colocando essas portas para dificultar as tentativas de suicídio que, aqui, são constantes

Na véspera, segunda-feira, tirei o dia para trabalhar na pesquisa e resolver problemas burocráticos. Fui ao Le Penty e circulei pelo mercado, que não abre às segundas. A maioria das lojas do bairro também fecha (ótica, joalheria, bares, cafés, supermercados, entre outros). Só o Penty, o Kofe e o La Grille abrem. Depois, comecei a rascunhar o artigo que escreverei comparando Aligre e Botafogo, e reli o texto que o LeMetro elaborou para o colóquio que vamos fazer em homenagem à Jane Jacobs, no segundo semestre.

Mapa do meu campo de pesquisa no Marché d'Aligre. Falta fazer o mapa do mercado fechado

Infelizmente, esqueci de descarregar as fotos do Butte-aux-Cailles e das imediações da Place d’Italie. Coloco então outras imagens de Paris que fiz por esses dias. A bientôt!

domingo, 3 de abril de 2011

Anotações de campo

A fachada do Penty, um pé-sujo de esquina, de frente para o mercado: o que mais se pode querer?

Paris, 3 abril 2011. Observações de campo, a partir do café Le Penty. Mais uma vez, entro no bairro pelo botequim. Tenho ido todos os dias ao Le Penty, que é um ótimo ponto para observar o vaivém do Marché d’Aligre. O Penty pertence a um senhor de uns 60 e tantos, um judeu egípcio, que toca o negócio com os filhos (três moças e um rapaz) e o irmão. A casa abriga os velhos moradores do bairro, inclusive os de origem magrebina, mas também vem sendo “freqüentado” pelo bobôs, que o vêem como uma referência de “autenticidade” do bairro.

O bar em si é muito simples e não tem a mesma sofisticação dos concorrentes em torno do mercado d’Aligre, como La Grille, Le Baron Rouge, Le Charolais e o Kofe. Está mais para um pé-sujo, como o Bar du Marché (este ainda mais radicalmente rudimentar e pouco ou nada freqüentado pelos bobôs). Também parece estar mais na onda do Le Tabac, que também mistura bem os dois tipos de vizinhos. O pessoal também toma café na “chocalateria” Puerto Cacao (extremamente bobô) e nas boulangeries Confisseur e La Pain au Naturel.

O comércio em torno do mercado e nas ruas adjacentes dão bem a medida da mistura que todo o 12eme está passado, sobretudo na área do Marché d’Aligre. Há várias lojas sofisticadas (decoração; móveis; livrarias especializadas em temas, como arquitetura; antiquarius, cafés, restaurantes e bistrots) e outras, tradicionais (sobretudo as de comida: boucheries, poissonneries, triperies, fromageries, epiceries etc). Também proliferam pelo bairro (e por toda Paris) as agências de venda e aluguel de imóveis.

O Penty visto por dentro: balcão e mesinhas

Como no Rio, a especulação imobiliária fez os preços dos imóveis, para aluguel e venda, saltarem muito além dos fundamentos econômicos do mercado, gerando uma bolha, que em algum momento vai estourar. O apartamento de Marta é um exemplo: Ela comprou o imóvel há 10 anos, antes de o bairro ser “revitalizado”, com obras de infra-estrutura e renovação dos equipamentos urbanos, e antes também da chegada da leva de bobôs. Ná época, ela pagou 2 mil euros por metro quadrado. Hoje, o imóvel vale 10 mil euros o metro quadrado, segundo o site de agentes imobiliários meillieursagentes.com.

Na Place d’Aligre, o grande prédio em curva, com jeito de HLM, tem apartamentos, segundo o mesmo site, que variam de 5.138 euros o metro quadrado a 9.809 euros o metro quadrado, sendo os apartamentos dos últimos andares os mais caros. Valorizam o imóvel ainda se o prédio tem elevador, se as janelas abrem para vários lados da rua ao mesmo tempo, o tipo de chaminé, pátio interno etc. Se for mantida a mesma proporção em relação à valorização do preço do apartamento de Marta, que é no mesmo arrondissement, esses valores quintuplicaram em dez anos, sendo que o grande salto mesmo se deu nos últimos três anos.

O prédio 15 da Place d'Aligre, onde o preço médio do metro quadrado varia de 5 mil e tanto a quase dez mil euros: especulação

Não é por acaso que Paris vive uma profunda crise de moradia, o que levou à manifestação que cobri para o Globo no mês passado. Os manifestantes pediam sobretudo uma política de habitação que ponha um limite ao mercado imobiliário(estabelecendo mesmo um teto para os preços dos imóveis), pois hoje não há qualquer lei que limite os reajustes de aluguéis ou preços de imóveis.

Por mais que seja difícil classificar o que exatamente significa bobô como fenômeno urbano, eles são muito fáceis de perceber, quando perambulam pelo bairro e chegam aos cafés. O termo foi inventado pelo articulista do New York Times, David Brooks, e, portanto, trata-se mais de um fetiche jornalístico do que um conceito sociológico ou urbanístico. É um grupo social classificado pela expressão “bourgeois-bohêmes”, uma espécie de classe média alta, culta, intelectual, inclusive artistas, profissionais liberais, que amam a boemia e um sentido de “autenticidade” da cidade, da gastronomia, da arte, da literatura etc.

Já o gentrifier — que é o tipo de novo morador com maior poder aquisitivo, que se muda para o bairro popular, transformando sua morfologia social — atravessa o sentido de bobô, mas um não é necessariamente o outro, daí a dificuldade de classificar esse grupo social que é visivelmente fácil de reparar na rua e nos cafés do Marché d’Aligre. Bem, o fato é que o bairro está tomado por bobôs, com suas roupas elegantes, cachecóis estilosos, botas de caminhada e celulares de última geração tecnológica.

No Penty, sua presença alivia os negócios do patron, mas espanta os fregueses mais antigos, que não ficam muito tempo no bar. Tomam seu chá de menta, conversam um pouco entre si e com o dono, a maioria em pé, no balcão, e vão embora. Os bobôs, por sua vez, sentam-se às mesas, abrem seus laptops, lêem seus livros ou simplesmente degustam suas bebidas (mais cedo, cafés e chás; mais tarde, cervejas ou vinhos), jogando conversa fora. Os jovens magrebinos (20 e poucos), com suas jaquetas de couro escuras, se encontram no bar, mas logo partem. Me parece que, para eles, o Penty é um ponto de encontro para ir a algum outro lugar.

Esquina da rue Cotte com rue Th. Roosevelt, nos fundos do mercado fechado: bobolândia

Há ainda um terceiro tipo de freguês, que nem é o bobô nem é o morador “tradicional” (magrbino, africano, operário). É um morador do bairro, classe-média mais simples, como esse sujeito careca que entrou agora com uma amiga. Ele é um velho freqüentador do Penty, que chegou falando alto e com intimidade com as pessoas do bar. Fez piada com um outro cliente, para pedir para usar uma cadeira que estava sobrando em sua mesa. Também me impressiona a quantidade de crianças e adolescentes que vem ao Penty com os pais. À minha frente, pai e filha (ele com uns 40 e tantos e ela, com uns 14) repartem um croque monsieur. Ela bebe Coca-Cola e ele, uma Amstel pression. Há ainda os que vêem com seus cães. E os que se encontram para fazer juntos jogos, como soduku. O bar de proximidade em Paris é um parque de diversões!

À medida que a feira vai acabando, o volume de clientes cresce no Penty. Mais e mais pessoas chegam com sacolas de compras para comer ou beber alguma coisa. O Penty tem uma cozinha muito simples: croque monsieur, croque madame (o croque monsieur com um ovo em cima) ou omeletes. Mas, além de ter a cerveja mais barata que encontrei até agora em Paris, o Penty oferece gratuitamente uns potinhos com azeitonas e castanha como acompanhamento. Nesse momento de maior movimento, o bar enche e esvazia várias vezes.

Rue de Cotte, em pleno processo de gentrification, com os imóveis sendo renovados para serem vendidos ou alugados a preços estratosféricos

Aproveito o bar para ler os livros da pesquisa. Ontem, comprei o do Orham Pamuk, sugerido por Franco La Cecla: Autres Coleurs, onde tem o capítulo em que Pamuk narra porque não se tornou arquiteto. Também estou curtindo muito o livro de La Cecla e sua crítica aos “arquiestrelas”, os arquitetos estrelas. Me dá boas inspirações.

Ao fim dessa postagem, fui surpreendido pela chamada de meu compadre Tito Rosemberg, de sua casa em Pipa, no litoral do Rio Grande do Norte. Falamos por vídeo-conferência e pude ver um pouco a casa, que foi construída por ele. Estou devendo uma visita. Ele também pôde falar conigo, Marta e Ruben. Outro dia, falei com minha querida Mila Chaseliov, que está em Jerusalém! Muito bom o Skype!