sexta-feira, 4 de março de 2011

Meu botequim em Paris

A fachada do Café de L'Industrie original: exotismo e boemia

Paris, 4 março 2011. Café L’Industrie, cerca de 16h30. Acabo de chegar, vindo do banco, onde peguei minha carte bleue. Agora tenho conta na França, embora zerada, ou mesmo no negativo, já que o fornecimento do cartão é cobrado. Saí do banco e desci o boulevard Diderot, onde subi a uma passagem suspensa que atravessa quilômetros e quilômetros de Paris. Fui em direção à Bastille, onde desci. Meu destino: meu boteco parisiense, para beber uma Leffe ruiva bem encorpada. Até pensei pedir um café e deixar a cerveja para outra ocasião, mas em homenagem aos meus amigos foliões cariocas, ergui um brinde solitário de Paris, solitário, mas de coração.

O Café por dentro, em 1996, foto de Marta Nascimento


A Leffe é uma cerveja de qualidade e, com o frio, pode-se degustá-la calmamente, como se deve, saboreando seu amargor com ar de intelectual. Mas todo mundo no bar está bebendo café e, em pelo menos duas meses, têm mamães com crianças de 1 ano ou coisa que o valha. É impressionante! Outros lêem concentradamente. O bar é um bom lugar para ler, mas para estudar complica por causa da música, que, no L’Industrie é como a rádio Fip, toca de tudo, inclusive música brasileira.

Sempre gostei do Café de L’Industrie, desde a primeira vez em que Marta me levou lá, em 1995. Em 2002, eu e Flávia Barbosa derrubamos umas oito cervejas cada um, para espanto da galera do boteco. Ele tem um clima que me lembra os bares de Búzios no início dos anos 80. Uma vez conversei com um dos dois donos, que fala português. Ele passa seis meses viajando e seis meses tomando conta do bar, quando troca com o sócio. É bom trabalhar assim, não é mesmo?

Antes de abrir o bar ele morou em Búzios e na Bahia, além de outros lugares no Caribe e África. O bar é todo decorado com peças que ele e o sócio trazem de suas viagens. Isso dá ao lugar uma ambiência bastante exótica e autêntica, já que as peças têm sempre uma história. Entre as peças, uma enorme trombeta tibetana, pele de jacaré e casca de tartaruga, muitas esculturas e quadros. Completam o exotismo, ou deveria dizer erotismo, as garçonetes (só tem mulher servindo!), todas belíssimas e exóticas (parecem modelos com ares de strange kind). A luz amarela reforça o tom âmbar do boteco e tem um jardim nos fundos, o que permite a entrada de uma luz que, à tarde, quebra um pouco a penumbra. Parece que a coisa prospera, pois os donos abriram mais dois cafés, além de ampliar o original.

O caminho suspenso é um passeio e tanto e relativamente pouco conhecido

São esses momentos de Paris que me encantam. Quando estamos na boemia e a cidade se revela mais generosa e aberta. As pessoas ficam mais bem-humoradas e acessíveis, mas, ao mesmo tempo, ninguém perturba ninguém. Estou no café há uns 40 minutos tomando lentamente minha cerveja e fazendo essas anotações. Se eu não chamar a garçonete, ninguém vem me encher o saco. A postura dos parisienses é bem conspícua. Dá para ver quem é daqui e quem é de fora, pelo ar blasé do pessoal local. Goffman certamente faria um manual sobre a coreografia parisiense nos cafés. Bem, essa foi a minha primeira cerveja desde que cheguei à Paris. Thank God it’s Friday! Mas tenho que voltar pra casa. Um frango ao curry me espera. Terei três juízes severos: Marta, Ruben e Lorenzo. Ai, ai...

Bem, estou transcrevendo para este blog as anotações feitas no bar. Cheguei em casa e comecei a preparar o frango ao curry. Ontem, havia comprado o frango no Marché d’Aligre, numa barraca especializada em aves. É o tal poulet fermier, com o selo label rouge. Caro (uns 20 euros), mas muito mais saboroso. Vem com cabeça e patas, mas o açougueiro corta na hora. E, claro, os miúdos, sobretudo o coração. Em casa tiramos a pele e cortamos em pedaços (coxas, asas, peito e tal). Agora, ao chegar em casa, triturei os ingredientes até formar um pó homogêneo e extremamente perfumado. O cominho vem primeiro, depois a canela.

Marta também chegou e está me ajudando na empreitada. Pegamos a panela de barro, onde coloquei a cebola picada com alho (uma cebola e quatro dentes de alho, sem o talo, que dá aquela azia) com azeite para refogar o frango. Fiz um caldo com leite de coco e caldo de galinha, com água quente. Também cortei um tomate para ajudar a formar o caldo. Colocamos o frango e, depois que ficou dourado, acrescentei o curry, sal grosso, o caldo com leite de coco, o tomate e uma papaya verde. Baixamos o fogo e o bicho está cozinhando enquanto escrevo estas linhas. Vamos abrir um Haut Médoc, de 2000, para a ocasião. U-lá-lá!

3 comentários:

  1. ai, paulinho, seu texto sempre foi delicioso, mas o molho parisiense tá dando um sabor, digamos, exotique! profitez! beijão

    ResponderExcluir
  2. Ei Andrea! Vem pra cá! Beijão!

    ResponderExcluir
  3. Paulothi, vou experimentar tudo: o L´Industrie e sua receita de frango ao curry. Viajando antes de viajar.
    Beijo grande,

    ResponderExcluir